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A importância da aprendizagem socioemocional na escola

16/01/2018

*por Fernando Mesquita, diretor do departamento brasileiro do International School of Curitiba

As crianças não são adultos em miniatura, e por esse motivo precisamos oferecer a elas oportunidades de aprendizagem que vão além da esfera cognitiva.

Os currículos escolares tradicionais já não dão mais conta das demandas complexas do século 21. Há alguns anos, a promessa de uma educação integral era apenas uma filosofia. Atualmente a sua concretização se tornou um pré-requisito para o sucesso. A primeira década do século 21 nos mostrou que o mundo precisa de mais do que conhecimento e, dentro desse contexto, a escola tem um papel muito maior do que o ensino de matérias acadêmicas. Para formar jovens de maneira mais completa, precisamos desenvolver neles várias habilidades socioemocionais. Dentre essas habilidades e atitudes estão a autoconsciência, a autorregulação, a motivação, a empatia e a sociabilidade.

A importância da aprendizagem socioemocional tem sido amplamente debatida. A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico publicou um relatório recente apontando as habilidades socioemocionais como grandes motores do bem-estar e do progresso social. Vários outros estudos acadêmicos também indicam que essas habilidades estão relacionadas com o sucesso dos jovens.

Um exemplo desses estudos é uma pesquisa feita pela Universidade de Columbia, em Nova York, em que o pesquisador Walter Mischel deu um desafio a várias crianças: o desafio do marshmallow. Nesse estudo, as crianças ficavam sozinhas numa sala e tinham em sua frente um marshmallow. O pesquisador prometia às crianças que, se elas aguentassem esperar por 15 minutos sem comer o doce, elas ganhariam dois doces. Algumas crianças não resistiam à tentação e comiam o doce antes dos 15 minutos, demonstrando que não conseguiam retardar uma gratificação imediata. Quarenta anos depois, o pesquisador investigou a vida dessas pessoas e constatou algo em comum a todas as crianças que tiveram o autocontrole: em relação ao outro grupo, elas tinham melhores empregos, salários mais altos e estavam mais satisfeitas com a vida que tinham.

A aprendizagem socioemocional também ganhou ênfase em um relatório importante organizado pela Unesco durante debates sobre a educação para o século 21 com o filósofo francês Jacques Delors. A mensagem principal do “Relatório Delors” é que a prática pedagógica deve preocupar-se em desenvolver quatro pilares ou aprendizagens fundamentais: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser.

Esse relatório traz para as escolas a importância de se focar no “aprender a conviver” e no “aprender a ser” de forma sistêmica e institucional para que esse trabalho não dependa da iniciativa de alguns educadores e algumas famílias apenas. Tal tarefa só se consegue realizar quando escolas e famílias refletem e se esforçam para ensinar os jovens a administrar conflitos, a viver em comunidade, a colaborar em times heterogêneos, a respeitar a diversidade, a lidar com a frustração, com o fracasso e com as dificuldades apresentadas na vida.

As crianças não são adultos em miniatura, e por esse motivo precisamos oferecer a elas oportunidades de aprendizagem que vão além da esfera cognitiva (das habilidades de analisar, interpretar, deduzir, aprender). O respeito, a autoestima, a resiliência, a empatia, o autocontrole são importantes para que os jovens encarem os desafios pessoais, acadêmicos e profissionais no futuro.

Famílias e educadores podem promover o desenvolvimento dessas habilidades das seguintes formas: reforçando que a inteligência não é fixa e que ela pode ser desenvolvida com dedicação e esforço (mentalidade de crescimento), incentivando a criança a falar e escrever sobre os seus pensamentos e suas emoções, a praticar exercícios de respiração e meditação, a escutar o outro para entender e não simplesmente para responder, a achar algo positivo, mesmo em atividades que não gosta tanto de fazer, a elogiar o outro, a desacelerar, a utilizar as novas tecnologias com moderação, a pesar os prós e os contras antes de tomar decisões, a nutrir relações de amizade e a resolver conflitos de forma diplomática.

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Acima de tudo, para mediar a aprendizagem socioemocional, famílias e educadores têm de ser os exemplos do uso dessas habilidades nas suas relações. “À educação cabe fornecer, de algum modo, os mapas de um mundo complexo e constantemente agitado e, ao mesmo tempo, a bússola que permite navegar através dele”, disse Jacques Delors.

 

 

Postado originalmente no jornal Gazeta do Povo.

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