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Francisco Gaetani, presidente da ENAP, aborda a importância e os desafios da formação de lideranças públicas

Fomentar o conhecimento e a troca de experiências é uma das missões da Comunitas. Por esse motivo, a organização incentiva a produção de conteúdos e investe na formação de novas lideranças públicas, visando auxiliar no enfrentamento dos desafios da administração pública.

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Todos esses conteúdos especializados produzidos pela Comunitas foram usados para a formação de mais de cem gestores públicos, oriundos de 73 municípios brasileiros, durante as aulas do curso de Especialização Lato Sensu em Gestão Pública com Ênfase em Governo Local, promovido pela Escola Nacional de Administração pública (Enap) – entidade vinculada ao Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, que contou com apoio da Comunitas.

E para abordar a importância das habilidades de liderança na gestão pública, o Bate-Bola dessa vez é com Francisco Gaetani, presidente da Enap. Confira:

 

#1 Quais as habilidades fundamentais para um gestor público?

Francisco Gaetani: Esta é uma lista potencialmente infinita. Há uma tendência de idealizarmos o gestor público como uma espécie de samurai da administração pública, que luta contra a burocracia na defesa do interesse público em sintonia com os dirigentes políticos eleitos. Esta não é a realidade. O primeiro ponto a ser destacado é o fato de o bom gestor público saber discernir qual é o interesse público na posição que ocupa. Isso é fácil de ser esquecido e eclipsado, seja em função da permanente confusão que é o Governo, seja em função da confusão entre valores públicos e privados na condução dos chamados negócios de Estado. Um segundo ponto, menos óbvio, é o fato de, no dia a dia, as habilidades comportamentais serem mais estratégicas do que as cognitivas na vida do gestor público. Estas habilidades comportamentais são mais difíceis de serem adquiridas. Podem ser desenvolvidas e reforçadas, mas não da forma direta, como no caso das instrumentais e cognitivas.

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#2 Quais os desafios encontrados para essa formação de habilidades?

Gaetani: Pessoalmente, acho que as habilidades comportamentais são as mais difíceis de serem desenvolvidas, embora não costumem ser aquelas com as quais governos e academia se ocupem. A modelagem de comportamentos começa muito cedo na vida das pessoas. E após uma certa idade – quando se tornam adultas – modificar este comportamento consolidado não é simples. Não é impossível. Mas requer uma abordagem mais nuançada e, em boa medida, individualizada. Ambientes costumam moldar comportamentos. Estruturas de incentivos também. Equipes são crescentemente reconhecidas como capazes disso. Mas nem sempre as variáveis estão sob governança dos gestores encarregados de produzirem resultados. Como comissionar este tipo de iniciativa? Como lidar com este desafio institucionalmente ? Não é óbvio. E as equipes encarregadas das atividades de recursos humanos dificilmente estão preparadas, ou têm condições, para fazê-lo – o que é um dado a ser levado em conta.

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#3 Como avaliar se a formação das lideranças é de fato efetiva?

Gaetani: Minha resposta instantânea é … depois. Isto é, esta é uma tarefa que ocorre ex post, mediante programas de follow up e de tracking das trajetórias de egressos de programas de formação de lideranças. Não é comum as pessoas saírem de cursos para lideranças e, na sequência, assumirem posições de autoridade. E, mesmo quando isso ocorre, não significa que estas pessoas sejam reconhecidas como líderes, apenas chefes. Um caminho alternativo é o da engenharia reversa: buscar compreender os programas de capacitação e as experiências de trabalho que contribuíram para a formação da liderança destas pessoas. Desconfio também que coaching and mentoring podem acelerar estes processos. Mas seria preciso ir mais a fundo nesta reflexão. É uma boa preocupação que demanda sistematização e tempo. Desconfio também que personalidade e histórico anterior ao ingresso no serviço público contam.

 

#4 Qual a relação entre o desenvolvimento de gestores públicos e o desenvolvimento do país?

Gaetani: Atualmente muito indireta. Tênue, na melhor das hipóteses. Practitioners experientes que estão em Brasília há algum tempo são capazes de observar como a lenta profissionalização do funcionalismo tem melhorado a qualidade da administração pública a qual, por sua vez, tem colaborado com o desenvolvimento do país. Mas esta cadeia de causalidades é frágil e controversa. Não há uma clara percepção na sociedade desta associação – muito menos de causalidade nos termos da literatura especializada. Pode-se argumentar à exaustão que desenvolver gestores é essencial para o desenvolvimento do país. Mas este não tem sido o discurso vitorioso em qualquer dos governos desde a redemocratização. A desconfiança em relação à burocracia é muito grande, inclusive por dirigentes políticos de distintas matizes. O corporativismo das carreiras do funcionalismo também não tem favorecido esta abordagem, porque sua pauta é quase que exclusivamente auto referenciada. A certeza que tenho é que nenhum país se desenvolveu sem bons gestores públicos, inclusive alguns que não eram desenvolvidos décadas atrás como Coréia, Irlanda e os países bálticos. Para lidar com este desafio precisamos de uma nova narrativa, baseada em melhores argumentos e melhor empiria.

 

#5 Quais as habilidades das lideranças corporativas podem servir para lideranças públicas?

Gaetani: Negociação, propensão a inovar, capacidade de correr riscos, gestão de desempenho e de resultados, capacidade de comunicação, retórica, gestão de conflitos, marketing, gestão de Custos, coaching, mentoring  … Acho que já está bom senão vira uma lista de Natal. O olhar do mercado agrega muito à administração pública onde, na verdade, encontram-se vários mercados funcionando também, ainda que mais “fechados” ou sujeitos a regras distintas.. O inverso também é verdadeiro. Depende de saber o que aproveitar e como. No fundo, a capacidade de discernimento é que é importante. As lideranças empresariais possuem uma caixa de ferramentas distinta da dos bons gestores públicos. Ambos têm muitas coisas para trocar e compartilhar.

 

#6 Quais os desafios das novas lideranças públicas brasileiras?

Gaetani: Se a pergunta se refere às lideranças em instituições públicas, depende muito do nível, do tipo de organização e da instância de governo. Uma Diretora de Escola Municipal, um Secretário de Estado de Educação, um Coordenador do Tesouro Nacional, um Diretor de Programas na área de Ciência e Tecnologia, um Reitor de uma escola técnica, um Prefeito, o Diretor de uma Estatal, o Chefe das Licitações de uma autarquia como o DNIT, o Consultor Jurídico de um ministério, o gestor de uma Unidade de Conservação etc. são todos dirigentes de distintos órgãos em várias esferas governamentais. Possuem papéis semelhantes mas com distinções em relação a dirigentes do terceiro setor ou mesmo do setor privado que exercem papéis públicos. Os maiores desafios, em ambos os casos, referem-se a questões associadas aos fundamentos da esfera pública: capacidade de discernir e de criar valor público; focar no senso de propósito das iniciativas públicas; articular coalizões capazes de fazer avançar agendas transformadoras, no interesse da sociedade; atualizarem-se continuamente de forma a estarem aptos à interação com um mundo que passa por uma profunda revolução digital; desenvolverem competências de policy advocacy capazes de impulsionarem sua capacidade de interação com a classe política, com o setor empresarial, com o ambiente internacional e com o terceiro setor – além do público em geral.

 

#7 Qual a importância de parcerias, como a da Comunitas e a Enap, para o fortalecimento e empoderamento de novas lideranças públicas?

Gaetani: A COMUNITAS tem uma atuação muito próxima do mundo real – algo que não é óbvio e automático para quem trabalha no governo federal em Brasília. Trabalha com governos locais e com instituições do terceiro setor. Tem um viés pró-inovação. Possui uma vocação para experimentação. Para a ENAP, a aproximação com a COMUNITAS é uma oportunidade de aprendizado, por meio do convívio e do desenvolvimento de inciativas conjuntas, em especial no que se refere a governos locais. A COMUNITAS traz oxigênio para a ENAP que, em Brasília, não tem o pulso do dinamismo da realidade do país.

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