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“A cidade inteligente e inovadora usa a tecnologia de modo estratégico”, afirma diretora de Conhecimento e Inovação da Comunitas

A Comunitas está crescendo, ano após ano, e uma das áreas responsáveis por isso é a de Conhecimento e Inovação – encarregada de analisar, estruturar e ampliar os impactos dos trabalhos realizados pela organização. Por esse motivo, hoje (19), no Dia da Inovação, nossa conversa é com Bruna Santos, diretora de Conhecimento e Inovação da Comunitas, que explica a importância e os desafios de inovar nos governos.

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Além da Comunitas, Bruna atua como professora-adjunta do mestrado global de administração pública da Universidade de Columbia (EUA), e foi gerente do braço latino-americano da universidade no Brasil, a Columbia Global Centers | Rio de Janeiro, onde liderou programas e projetos em gestão pública, inovação e educação. Já atuou como analista de mercado na Chinatex, em Beijing (China). Graduada em Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Bruna é mestre em administração pública pela Universidade de Columbia, com especialização em gestão e finanças na mesma universidade.

O conceito de inovação permeia de formas diferentes na mente das pessoas. Para você, o que é inovação?

Se entrarmos na semântica, claro, a palavra inovação pode significar o que você quer que signifique. Para mim, ela significa a capacidade de criar o novo.  Acho que a sociedade só avançou até aqui graças a capacidade de nós, seres humanos, imaginarmos e criarmos o novo. A inovação está intimamente relacionada com a criatividade e a capacidade humana de gerar valor com o resultado dela. Para mim, a inovação não é apenas um serviço ou produto, mas um jeito novo de pensar como as coisas são feitas e como podem ser melhoradas.

Inovação é um jargão cada vez mais usado de forma vaga no mundo dos negócios. Está em toda parte. Praticamente todas as grandes empresas que conheço têm um programa de “inovação”, ou de “transformação digital”. Parece que estão totalmente comprometidos com a “transformação”, mas será que estão mesmo comprometidos com a inovação? Com criar o novo?

A eficiência estatal é amiga da boa governança, não inimiga. Quando me falam em inovação eu penso: como hackeamos a burocracia para que ela seja amiga, não inimiga, do aprofundamento das instituições democráticas? Na burocracia pública, quando a disfunção burocrática ocorre, esse sistema que fora criado inicialmente para ser um sistema de valores, passa a operar de modo falho como um sistema de normas e protocolos – o que corrompe esse que era para ser o bom “sistema operacional” do contrato social, da interação cidadão-Estado. Isso está ruindo. O brasileiro está descrente da política e das instituições. O Estado se perde em meio a procedimentos complexos e manuais e não consegue conectar as políticas públicas aos beneficiários pretendidos.

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E quando se trata de setor público, como se dá a inovação?

Globalmente, estamos enfrentando uma incerteza política e econômica sem precedentes. Muitas de nossas instituições criadas pós-Segunda Guerra Mundial estão sendo desafiadas, a ordem econômica e comercial está se reconfigurando e a democracia está sendo cada vez mais questionada. Mais do que nunca precisamos repensar o papel do governo na sociedade.

Eu sinto que no setor público muitas vezes chama-se de inovação um jeito diferente (na maioria dos casos, “digital”) de fazer o que sempre se fez. Algumas estratégias de digitalização mostram isso: em alguns casos criam-se burocracias digitais que replicam os processos disfuncionais do mundo físico. Não faz sentido. Acho que a capacidade imaginativa humana e dos grupos é infinita, limitamos a inovação ao colocarmos ela na caixinha do digital, do “descolado” e perdemos potencial.

Hoje, como se dá a inovação? Eu vejo tendências. Uma é a criação dos labs de inovação. A tentativa de criar espaços de resolução de problemas, com foco em resultados e na cocriação. A segunda tendência, muitas vezes invisível, são as inovações nos processos. Vejo oportunidades e casos de sucesso de inovação em processos internos por meio de ações simples: reimaginar o fluxo de conhecimento e informação por meio de uma governança de informação e tecnologia. Nunca vi ninguém aparecer no jornal por isso, não é hype, mas é um tipo de inovação com alto potencial transformador e normalmente com alta aderência em cidades maiores, como capitais. Existem também as inovações nas áreas fim, como as formas de cocriação de serviços com os cidadãos.

Em novembro a Comunitas lançará uma publicação sobre como inovar na hora de pensar a entrega dos serviços de saúde. Esta publicação vai trazer casos das cidades de Pelotas, no Rio Grande do Sul, e Santos e Campinas, ambas no estado de São Paulo. Esse tipo de inovação em serviços e nas áreas fim, que trazem o usuário para o centro e usam design e empatia, são muito válidos para as cidades e altamente replicáveis. Esta inovação possui alto impacto na percepção do cidadão sobre o acolhimento do Estado aos seus anseios.

No que diz respeito ao uso da tecnologia, existem muitos selos e jargões, mas entendo que a cidade inteligente e inovadora usa a tecnologia de modo estratégico, não como um fim, mas como um meio para resolver a disfunção burocrática e fazer com que ela esteja a serviço do aprofundamento da democracia e suas instituições.

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#  Quais as maiores barreiras para se inovar no Brasil? O que falta para o país criar um ecossistema propício para inovação no setor público?

Creio que um dos desafios a inovação sempre, em qualquer organização, é enxergá-la como “trabalhosa”, não fluida, desconfortável. Ou enxergá-la como um adereço redentor, uma cobertura que vem salvar um bolo cuja receita está mal calculada há tempos. A aversão ao risco e à dificuldade na hora de mudar é algo intrínseco ao ser humano, não é exclusividade do setor público. Mas nós já sabemos que como está não daremos conta, então, a adaptação é necessária.

De maneira mais ampla e estratégica, sinto falta de uma agenda Brasil de inovação e de transformação do papel do Estado na sociedade. Queria ver uma real inovação institucional nas entranhas do Estado brasileiro e para isso teríamos que ir além dos planos de 4 anos e partir para uma estratégia de “zoom-in” e “zoom-out”, olhar o horizonte das mudanças que veremos e queremos no mundo em 50 anos e ter um plano claro (e adaptável) de como temos que agir nos próximos 5-10-20 meses para chegar lá.

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#  Estamos em pleno século 21, como convencer as prefeituras brasileiras da importância da inovação?

Precisamos criar espaços seguros para inovação. E quando falo “espaços” me refiro a tornar possível para os municípios a adesão a métodos mais ágeis e adaptáveis. As cidades são por natureza um laboratório para políticas públicas, e elas podem entregar, no fluxo bottom-up (de baixo para cima) de conhecimento, mais valor e insights a pautas importantes nacionais como saúde, segurança, educação, se tiverem a capacidade para isso. Para “convencê-los” e mobilizarmos para a mudança no nosso trabalho na área de Inovação e Conhecimento da Comunitas, temos focado em três coisas:

  1. Mostrar as evidências do que já foi testado em outros lugares, os sucessos e os fracassos. Testar, pilotar, medir processos e sempre adaptar. Eu tenho ressalvas com a evangelização de qualquer coisa, pois precisamos ser responsáveis e prudentes ao levarmos qualquer solução para o setor público;
  2. Criar uma espécie ‘halo-effect’ positivo dos casos de deram certo. O efeito inspiração/cooperação intermunicipal para casos que deram certo é muito potente, temos tentado ampliar isso com a plataforma Rede Juntos. Eu tenho um sonho de fazer um festival da burocracia criativa (risos). Tenho muito respeito ao trabalho dos servidores, os ditos burocratas. Muitos deles estão produzindo resultados impressionantes, agindo de forma criativa e inovadora. Vamos dar destaque a isso;
  3. Sistematizar processos, não só resultados. As prefeituras já inovam, mas muito conhecimento é perdido, mal sistematizado, não avaliado. Entendo que temos muitos problemas de gestão de informação nas organizações públicas e privadas, mas precisamos adotar um modelo mental que dialogue com eficiência, não com a desconfiança. Os custos da negligência e da nossa falta de disciplina em resolver os problemas são altos demais.

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#  Mas como atravessar o obstáculo do baixo orçamento disponível nas prefeituras para inovar?

Inovação requer investimento, de fato. Para chegar a isso as cidades precisam pensar criativamente acerca de formas de gerir seus recursos e entregar os serviços com qualidade. A inovação é uma condição para garantir-se a sustentabilidade financeira, gerar escala e efetividade nos serviços.

A tomada de decisão sobre como fazer isso precisa ser mais inteligente, assertiva e ser carregada de uma visão de longo prazo. Um investimento que muitas vezes já vi ser feito na busca pela “inovação” e o ganho de eficiência é em sistemas de gestão – sempre aparece uma tecnologia milagrosa, que promete eliminar o papel, garantir a gestão eficiente, dar retorno nos resultados. Lindo. Mas tecnologia é meio para a inovação, não fim.

Muitos desses sistemas acabam por criar mais disfunção nas prefeituras. Alguns quando saem, enfraquecem a gestão. Outros requerem licenças eternas, não interoperam com sistemas de gestão usados na saúde, na educação. Ou seja, o que era para ser um milagre, torna-se um enredo de alto custo, traumático às equipes que algumas vezes são treinadas e em dois meses os sistemas travam. Quando se vai investir em inovação, é preciso pensar: o que estou investindo limita meu horizonte de operações no médio prazo, criam empecilhos a um cenário de ganho de escala? Sempre digo que inovar não é comprar um sistema de Business Intelligence, um painel de gestão. Inovar é pensar uma governança de informação que envolve pessoas, processos e possibilita qualquer painel de gestão rodar no topo daquelas informações.  O governo tem que focar em viabilizar a inovação da sociedade e isso começa por dentro de casa.

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#  Qual o papel de cada um no processo de inovação: setor público, iniciativa privada, cidadão e academia?

Cada um tem um papel nesse ecossistema. Mas como esse papel será explorado, precisa ser estabelecido em uma estratégia bem definida. O governo israelense, por exemplo, institui um papel bem definido para cada vértice – academia, setor privado e setor público.

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#  Como manter a sustentabilidade das ações de inovação com as trocas de governos?

A inovação é sustentável? A pergunta traz um paradoxo. Foi a capacidade humana de criar o novo e mudar sem medo que nos manteve até hoje por aqui. O que nasce dela pode se sustentar no tempo se ela for bem-sucedida. Mas a inovação é um processo de entropia, se dá, na minha leitura, em uma linha tênue entre o caótico e o sistemático, cuja ignição é dada pela urgência do “novo” e a falência do “velho”.

Sustentar a mudança é desafiador, pois tudo tem ciclos. Sermos ‘sustentáveis’ em nossas inovações, de forma que os produtos delas sejam perenes, requer propósito, liderança e resiliência.  Propósito: porque é preciso saber para onde se está indo e entender os movimentos de sintropia e entropia dos sistemas que atuamos. Há fases em que conseguimos planejar, prever, mas também há as fases das crises, em que você tem duas escolhas: ou a desorganização ou a oportunidade, a partir da adaptação.

Por isso a importância das lideranças: só a visão das lideranças dos projetos do país nos dá a energia necessária para resistir e nos adaptar aos choques. As crises sempre virão, resta saber como lidaremos com elas. Com visão e inovação, podemos fazer isso de modo criativo, entender a crise como uma oportunidade para criar o novo.  Daí emerge a resiliência como uma competência inata das nossas organizações, sistemas e indivíduos. A capacidade de criar o novo é o que nos “sustentará” como sociedade.

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Qual a relação entre inovação e combate à pobreza e fomento da economia, por exemplo? E qual a interação entre esses papéis?

Uma das minhas grandes inspirações na ciência e tecnologia é a Úrsula Franklin, uma cientista que nasceu em 1921 e foi pioneira do campo da arqueometria. Ela disse um pouco antes de morrer numa entrevista para revista The Atlantic algo que, em uma tradução livre, seria: “É central, para qualquer nova ordem que possa moldar e direcionar a tecnologia e o destino humano, que esta traga a ênfase no conceito de justiça”.

Para ela, a tecnologia não era uma soma de artefatos e engrenagens. Para ela a tecnologia era um sistema que abrangia mais do que materiais e componentes, envolvia procedimentos, organização, símbolos, linguagem, equações – e mais importante: envolvia um novo modelo mental! Acredito que se queremos inovar e usar as novas tecnologias para melhorar a vida das pessoas, nada mais racional do que começar com os sistemas que usamos para tornar a sociedade mais justa. O fato de termos avançado pouco na criação de sistemas de infraestrutura que completem a base da pirâmide de Maslow é, sem dúvidas, o que mais me preocupa no debate mais amplo sobre a relação inovação/governo.

A Estônia investiu em tecnologia como estratégia para sair do atraso e da pobreza, no começo dos anos 1990. O país hoje é considerado um dos países mais avançados na questão das identidades digitais e no uso da tecnologia no governo. No Brasil, ainda temos pessoas excluídas do sistema e invisíveis aos olhos do governo por não possuírem CPF (são 195 milhões que não possuem o documento), entre outras razões, por que custa R$ 180 reais fazê-lo. Precisamos discutir como a tecnologia pode estar a serviço da luta contra a desigualdade, e isso começa por garantir agilidade a burocracia e acesso aos cidadãos a uma identidade única.

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